Cuidado! Respeite o ciclista!

No dia 13 de Março Ely Diniz escreveu um texto que me deixou desconfortável por colocar o ciclista como responsável das agressões que sofre no trânsito. De fato, como levanta Ely em seu texto, a falta de educação sobre as leis de trânsito e os mecanismos de fiscalização precários fazem com que, não somente ciclistas, mas também pedestres e motoristas cometam diversas infrações, porém é preciso tomar cuidado para não generalizar culpando quem geralmente é vítima.

Quando Ely fala da Europa, provavelmente deve se referir a cidades que estão há décadas implantando a ideia da bicicleta como transporte de pessoas. Exemplos são Copenhague, Amsterdã, Barcelona, Londres, também Portland, San Francisco, Nova Iorque e Bogotá. Porém, é importante lembrar que essas cidades passam por uma mudança de longa data, que mal começou por aqui.

Nessas cidades, os ciclistas pedalam com mais segurança. De fato, isso irá ocorrer em qualquer lugar que forneça infraestrutura, educação e fiscalização eficientes. Também nessas cidades, os motoristas tratam os ciclistas com respeito, dividindo a rua de forma pacífica. Em regiões centrais as velocidades máximas permitidas geralmente variam entre 20 e 30 km/h, o ônibus respeita o ciclista que está na sua frente, há sinalização que indica quando o ciclista tem a preferência na via, existe uma infraestrutura viária destinada para esse modal.

Na Cidade das Bicicletas, a história é diferente. É comum motoristas agredirem moralmente os ciclistas com gritos para fora dos seus carros: “Sai da rua!”, “Vai para a calçada!”, “Vai morrer heim!”, é comum receber uma “buzinada” se você está pedalando dentro da lei e para junto à fila de carros no sinal. Existem motoristas que ultrapassam em alta velocidade e prensam o ciclista contra o meio fio. As faixas de ônibus foram mal projetadas [1], fazendo com que o ciclista seja obrigado a pedalar na calçada ou no meio da rua.  Apesar do Código de Trânsito Brasileiro [2] ter artigos que tratam de boa parte dessas agressões, nenhum deles é fiscalizado. Fica claro que, apesar de algumas ações, as autoridades não estão sendo eficientes em planejar, educar e fiscalizar, fazendo com que a população não veja a bicicleta como um meio de transporte.

Quando questionamos [3] os ciclistas que desrespeitam a lei pedalando sobre a calçada ou na contramão, a resposta é sempre a mesma: “medo da agressividade no trânsito”, “ver a ameaça de frente caso ela venha”. Essas são péssimas práticas, na verdade colocam as pessoas em risco, mas são utilizadas por quem vê nelas a falsa sensação de segurança para pedalar nas ruas.

Como cidadão joinvilense que faz uso da bicicleta como meio de transporte, concordo com você, Ely, precisamos de campanhas educativas, tanto para ciclistas como para motoristas e pedestres. Vejo ainda, a necessidade da criação de um projeto de cidade a longo prazo, de iniciativas que favoreçam a adoção da bicicleta e do transporte coletivo. Vejo a necessidade de rigorosa fiscalização da lei de trânsito, que atualmente parece estar esquecida. O fato é que se tivéssemos bom senso e respeito pela vida do próximo não precisaríamos dessas leis. Enfim, eu gostaria de ver a cidade do objeto bicicleta se tornar, de fato, a cidade dos ciclistas.

Por Alan Rafael Fachini, escrito em resposta ao artigo “Cuidado! Olha a bicicleta!” de Ely Diniz no dia 13 de março de 2013 para o Jornal ANotícia.

[1] Com exceção da rua São Paulo, onde existe uma ciclofaixa ao lado da faixa do ônibus, mas somente em metade da rua.

[2] Código de Trânsito Brasileiro. De forma resumida, alguns de seus artigos em relação à bicicleta: Deixar de guardar a distância lateral de 1,5 metros ao passar ou ultrapassar ciclista é infração média com multa (Art. 201), deixar de reduzir a velocidade do veículo ao ultrapassar o ciclista é ingração grave com multa (Art. 220), o carro deve dar preferência de passagem ao ciclista (Art. 214), colar na traseira do ciclista ou apertar ele contra a calçada é infração grave (Art. 192), ameaçar o ciclista com o carro é infração gravíssima, passível de suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo e da habilitação (Art. 170), conduzir montado na bicicleta na calçada é motivo para multa e apreensão da bicicleta. (Art. 255).

[3] Pesquisa pública realizada em Agosto de 2012 com cerca de 260 ciclistas joinvilenses.

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